Cmdt. Luís Pimentel | 50 anos de Bombeiro

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50 Anos de força e de carácter

Luís Manuel Paula Pimentel Costa, o Comandante Pimentel, nasceu há 64 anos nas Caldas da Rainha e desde muito cedo demonstrou a sua paixão pelos bombeiros. Um homem, um bombeiro, uma carreira com 50 anos que se confunde com uma vida. A farda que vestiu pela primeira vez aos 14 anos de idade ainda hoje é usada com o mesmo garbo e sentido de responsabilidade que tão cedo lhe foi incutido, o que é diferente? O saber, a experiência, a ponderação e a capacidade de liderança.

“ Ó Zé, eu gostava tanto de ser bombeiro”

Oriundo de uma família de bombeiros por força de seus tios, desde muito cedo se identificou com o voluntariado. Aos 14 anos, outros tempos, vai laborar para uma oficina onde tem 2 colegas de trabalho bombeiros. Muitas eram as conversas e a determinada altura a um deles, Luís Pimentel confessa o seu desejo de ser bombeiro.

 José Carlos Faria, carinhosamente conhecido como o “Zé Barril”, foi sem sombra de dúvida o impulsionador para que Luís Pimentel ingressasse nos Bombeiros, foi pela mão deste que entrou no quartel dos Voluntários de Torres Vedras e se inscreveu para ser Bombeiro, estávamos a 17 de setembro de 1967.

Aos 18 anos, apesar de jovem, era visto pelos seus pares e em particular por um dos seus formadores, de nome Manuel Lourenço, Chefe do Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa, como alguém com o perfil ideal para ingressar nos Sapadores Bombeiros.

Com o apoio do seu Pai, aos 18 anos, concorre aos Sapadores Bombeiros de Lisboa, na altura a lei assim o permitiu. Politicamente Portugal vivia tempos muito conturbados e a guerra do ultramar chamava todos os jovens, apesar do seu ingresso nos Sapadores Bombeiros, Luís Pimentel não fica livre da guerra.

Dos Sapadores Bombeiros são infindas as histórias para contar, não haveria palavras que traduzissem os momentos que por lá viveu em 32 anos, entrou como recruta e saiu como comandante de companhia, um caminho que fez palmilhando, onde muito aprendeu e onde muito ensinou.

“Saía do Regimento vinha para Torres Vedras, saía de Torres Vedras ia para o Regimento”

Aliado ao seu desempenho profissional, o voluntariado não desaparece, após o 25 de abril de 1974, foi o coronel Fernando Teixeira Coelho, Cmdt do batalhão dos sapadores de Lisboa que o autoriza novamente a ser bombeiro Voluntário no quadro ativo em Torres Vedras. Assim e em simultâneo, exerce a sua profissão de sapador bombeiro em Lisboa e voluntário na corporação de Torres Vedras, onde faz a sua carreira até ao posto de chefe, voluntariado apenas suspendido no ano de 1998 quando vai comandar o quartel dos Sapadores no recinto da Expo 98.

Quando chega a aposentação, o primeiro dos muitos desafios propostos é o ingresso no Comando dos Bombeiros Voluntários de Samora Correia, onde esteve por um período considerável, pelo meio alguns estímulos laborais, até que surge um convite para ingressar como Comandante nos bombeiros de Agualva-Cacém, corporação onde está há cerca de 9 anos com a missão de a tornar num exemplo, apesar de alguns desafios que tem encontrado.

Ao longo de 50 anos lidou com muitas pessoas, não gosta de recordar quem o marcou de uma forma negativa, porque considera que são momentos para esquecer, por outro lado, prefere destacar quem de uma forma positiva o ajudou, lhe transmitiu valores sobre os quais viveu a sua vida e que ainda hoje o conduzem. Desta forma, é impossível não nos contar uma história que potencialmente alterou o rumo da sua vida.

Quando aos 18 anos concorreu ao Batalhão de Sapadores Bombeiros, a vida familiar estava difícil, seu pai apesar de todo o apoio que lhe prestava, estava desempregado derivado a um problema de saúde e o dinheiro era coisa que não abundava. Nesses dias, no quartel de Torres Vedras, “andava triste”, quando um colega bombeiro de nome António Benquerença, o bombeiro 44, se apercebeu que alguma coisa não estava bem, após algumas teimosias, Luís Pimentel relatou que não tinha os 500 escudos necessários para “tratar dos papéis” e estava assim em risco, a sua admissão nos sapadores bombeiros. Sem pensar duas vezes, o bombeiro 44 levou-o a sua casa e deu-lhe os 500 escudos, dinheiro que fez questão de pagar quando recebeu o seu primeiro ordenado, António Benquerença, uma pessoa que marcou a sua existência de forma positiva, que lhe deu “grandes lições de vida”.

Mais tarde, destaca um senhor de nome Carlos Alberto Serra e Moura, para a época, um homem detentor de um conhecimento deveras avançado sobre bombeiros. Carlos Serra e Moura convida-o para ser seu parceiro de atividade e oferece-lhe a possibilidade de conhecer os bombeiros pelo mundo, logo começou a saber, a perceber as diferentes realidades e a absorver o que seria benéfico conduzir para os bombeiros em Portugal.

Infindáveis foram as ocorrências a que respondeu na sua carreira, momentos muito tristes, outros com um final feliz, de uma forma melancólica, lembra-se de um acidente enquanto bombeiro em Torres Vedras, um acidente de viação muito grave para os lados da Malveira, envolvendo uma criança muito jovem, conseguiu que entrasse com vida na unidade hospitalar, mas o médico de serviço de uma forma fria, disse que nada havia a fazer, uma das mais angustiantes memórias que tem.

Por outro lado, salienta uma história muito positiva e até “caricata”.

Corria o ano de 2003 e Luís Pimentel comandava a recém-formada Equipa de intervenção em catástrofe do Regimento de Sapadores Bombeiros. Em maio desse ano ocorre um violento sismo na Argélia e o MAI decide pela mobilização de uma equipa de resgate composta por cerca de 30 portugueses, uma equipa multidisciplinar chefiada pelo CODIS de Santarém, à data o Cmdt. Joaquim Chambel.

Luís Pimentel embarcou com a missão de chefiar a componente operacional e tinha a seu lado o Cmdt. Vítor Leal, a chefiar a logística, uma equipa totalmente inexperiente nestas andanças e com “aquele receio de principiante”. O cenário que encontraram, relata, era indiscritível, mas das fraquezas fizeram-se forças e no final foram consideradas uma das melhores formações no teatro de operação, o segredo diz-nos; “ com o receio que tínhamos de fazer mal, fizemos tudo bem, mas para que isso tivesse acontecido, não pode deixar de referenciar o trabalho de um homem, Joaquim Craveiro, um profissional simples, humilde e com tão grande sabedoria”.

E o futuro…

Quase a completar os 65 anos de idade, o seu tempo vai continuar bastante preenchido. Brevemente, quando chegar a altura de “pendurar o capacete”, vai oferecer mais tempo a si mesmo e fazer o que tanto gosta. As suas atividades de eleição passam pelas mais variadas vertentes. Desportivamente elege a caça e a pesca, numa vertente cultural, a poesia e o canto são artes que lhe enchem a alma, pondera ainda e quem sabe, escrever a suas memórias.

Quanto aos bombeiros? Jamais vai dizer não, a sabedoria e o conhecimento adquirido podem seguramente vir a ser úteis. Abraçar um projeto aliciante numa Associação vizinha não está fora de questão, se reconhecerem que pode ajudar, dirá presente!

Afinal, o que representam 50 anos.

Muitos momentos bons e alguns dissabores, muito sacrifício pessoal com gravosas implicações familiares, significa não ver crescer a filha e a neta como gostaria, o ter que dizer não à família e saber, sentir o que isso custa, são marcas que o tempo não apaga.

Mas também é olhar para trás e sentir o sabor do dever cumprido, ser responsável por ter ensinado milhares de bombeiros em Portugal, olhar para alguns comandos de corpos de bombeiros e saber que contribuímos para os ajudar a ser quem são, sentir o conforto de mais uma missão cumprida sem precisar que nos digam, sem esquecer aqueles que salvámos, memórias que nos acompanham até ao fim da vida…

Nota: a FBDL não pode deixar de transmitir os mais sinceros parabéns ao Cmdt. Luís Pimentel, 50 anos de carreira, um marco que marca uma vida, uma vida a servir outras vidas. Parabéns Comandante Pimentel!

Reportagem: FBDL | Comunicação